sábado, 30 de abril de 2011

O último texto diz muito sobre como venho me sentindo ultimamente. Mas não se preocupem por que o taverneiro sabe cuidar. Nem rezem por mim. Essa é a maneira de quem não faz nada se convencer de que está ajudando. Se isso ajuda vocês, fiquem à vontade. Se você sabe quem sou eu saiba que se você dispuser de algum tempo pra passar comigo já é muita coisa.

Gostaria de dizer que, como de costume, escrevi ouvindo música e achei que não tinha melhor a dizer. Sendo assim o que vocês têm é um mosaico. Nada original. Que se dane. Tentem descobrir, quem se interessar, quais são as músicas. Aqueles que me conhecem devem conhecer a maioria.

Então...

Com uma mãozinha dos meus amigos...

Talvez descubram e enriqueçam seu gosto musical, ou só descubram que pode não ser aconselhável juntá-las na mesma lista de reprodução.

Até a próxima.

As coisas não tem sido as mesmas desde que me estabeleci, garota...

Não tenho tempo pra pensar... Preferiria deitar ao sol como um gato, em vez de trabalhar (a noite inteira) feito um cão... Só pra pagar o preço caro de uma vida pobre...

Se você dá duro ou cai duro ninguém se importa...

Costumava ser diferente... Quando eu era jovem acreditava que mandava no mundo... Era mais um viajante indo pra lugar nenhum... Livre como um pássaro... Na verdade, nunca fui jovem, mas nunca me senti velho, a vida tem seus mistérios...

Ainda assim lembro que quando era menor minha mãe me avisou pra ser simples... Que vai haver paz quando terminar... E vai terminar quando eu disser que termina...

Criança estranha (teimosa)... Eu...

Só não me aborreça perguntando por que eu faço o que eu faço, eu só faço... Eu aprendo do jeito difícil... Tudo o que eu quero é um pouco de gentileza... Por que estou encrencado, garota... Ando preocupado... Hoje vou dormir sozinho...

Bem é hora de ir, garota, hora de dar adeus...

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

(Mais) Uma Coisa Sobre o Taverneiro

Um dia um homem vem ao psicólogo com a seguinte constatação:

O mundo ficou mais vazio, mais frio.
É mais fácil nos tornarmos o que mais odiamos do que o que amamos. As pessoas que amamos são aquelas que mais ferimos. Quando terminar e a terça-feira se for vamos lembrar mais as feridas do que as carícias, por que precisamos nos forçar a seguir adiante, sem garantias de que teremos algo parecido no futuro, justamente quando a fé que nos mantem de pé, de que há algo mais além no horizonte, nos abandona.

Existem menos coisas pelas quais viver, as luzes se foram, as vozes cantantes calaram, os risos se foram, os ouvidos se tornaram moucos.

O psicólogo responde:
Senhor,
Existem refúgios nesse mundo; lugares agradáveis onde dissolver esse sentimento. Existe uma taverna onde as luzes sempre brilham, onde as pessoas cantam alegres e conversam animadas, onde a bebida é a melhor que você pode imaginar e existe um taverneiro com os ouvidos sempre prontos para uma história e que vai oferecer abrigo sempre que elas o assombrarem. Eu mesmo desejo ir lá algum dia... Ainda sou humano, afinal.

O homem suspira, se acalma e olha de volta com um brilho diferente nos olhos. Não é exatamente esperança. Ele respira fundo:

“Tenho que ir”.
“Aonde?”
“Trabalhar, senhor. Eu sou o Taverneiro. É isso que eu faço. É isso que eu sou. Eu tenho que voltar.”

Estava eu relendo Watchmen e ouvindo Kansas e Gov't Mule, quando deparei aquela piada sobre o palhaço Pagliacci, aquela que Rorschach conta enquanto pensa sobre a morte de Edward Blake, o Comediante. A ideia me veio. Não minto, há motivos para se desesperar, sim, mas há também aqueles pelos quais continuar. Existem coisas que nos fazem retomar a força e a confiança, mesmo que não haja nada acima de nós que não o céu e nada abaixo que não o chão que pisamos. Enquanto bater o sino dessa taverna anunciando um desgarrado atrás de refúgio vai haver sentido. Não tem mistério.

"With nothing above you and nothing below, couldn't cure the need for somewhere else to go" Zakk Wylde, What you're looking for. Book of shadows, 1994.

"Carry on my wayward son, there'll be peace when you were done" Kansas,
Carry on my wayward son. The Best of Kansas, 1984.

"I shall return from the denpth of my own hell, I shall return". Gov't Mule, I shall return. Dose, 1998.





quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Lugares Legais

01) http://rabbitsdontdie.blogspot.com/
02) http://alemdealem.blogspot.com/
03) http://dedentrodacaverna.blogspot.com/
04) http://nathaliacforte.blogspot.com/
05) http://poemasdecolchao.blogspot.com/
06) http://www.lenhador.com/


Depois eu procuro mais lugares legais pra vocês. Até aqui já tem muita coisa o que ver, eu garanto.

Dez Coisas Sobre o Taverneiro

Aí vamos nós.
10 coisas sobre mim:

01) Penso primeiro, ajo depois, por fim, eu sinto. Não quer dizer que eu os despreze, apenas acho que sentimentos são combustíveis, não veículos. Eles alimentam as ações, não as orientam;

02) Sou meio distraído, mas vou lembrar de detalhes que você vai esquecer. Não sou frio e calculista, mas faço as coisas de caso pensado;

03) Estudo Psicologia. Não, isso não quer dizer que eu leio mentes ou entendo da alma humana. Quer dizer que eu tento ser um ouvinte compreensivo, mas não passe do limite. Sou eu quem decide pra que tipo de merda meu ouvido é penico;

04) Fico na minha. Se não quero conversar não é por que estou analisando você ou sou anti-social. Eu só não quero falar. Ponto. Sou calado por que Deus nos deu dois ouvidos e uma boca para ouvirmos mais e falarmos menos. Não quer dizer que eu sou tímido;

05) Preciso de mais tempo comigo mesmo do que com os outros, mesmo com as pessoas mais próximas;

06) Não sou efusivo e contagiante. Não morro de saudades, não morro de amores, mas se eu gostar de você pode ter certeza eu estarei lá de algum jeito se precisar;

07) Tenho uma gaita que eu chamo de Felicidade. Não sei de onde algumas pessoas tiram que elas soam tristes. Pra mim é um dos melhores sons que você pode ouvir. Adoro blues;

08) Sou heterossexual. Logo, não sou o homem perfeito;

09) Amor traz alegria e dor. É uma fonte de vida, não um jogo de criança. Como diz o Malveira, "eu te amo não é bom dia". A maioria das vezes que eu disse que "eu te amo" foi seguida de "sua imbecil". Não é fácil. É como o menor dos pássaros engolir a lua. Não conjugo amar no passado. Deixar de amar é odiar ou ficar indiferente. Não gosto disso, mas não quer dizer que eu seja um romântico incorrigível, apenas acho que tem que ser assim. Es muss ein;

10) Gosto tanto de sair como de ficar em casa. Prefiro ambientes familiares. Sou um homem simples e de hábitos. Gosto de bares aconchegantes, com boa música e pessoas conhecidas. Gosto de carros antigos e livros clássicos. Odeio multidões. Gosto da cidade, amo a natureza;

11) Eu sou o Taverneiro.

Selo de Qualidade


Putz, acho que ainda estou bêbado. Estou mesmo vendo esse selo?
Hum... quer dizer que eu tenho que falar de mim... como se já não tivesse dito mais do que deveria ontem... a bebida entra a verdade sai, hein?

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Escorpião

Eu estava aqui limpando as coisas, tentando manter tudo em ordem e a cabeça fria e no lugar. Foi aí que eu me senti a menor e mais desprezível coisa do mundo. Por que pra essas partículas subatômicas a vida não é mais que um segundo. E a minha se repetiu de novo na minha frente nesse exato intervalo de tempo quando eu olhei pra vassoura e vi um maldito escorpião amarelo no meu calcanhar de Aquiles. Meu coração pulou. Acelerou. Relinchou. Eu tinha sido picado e decidi beber tudo que tinha direito antes de morrer. Mas ainda estou aqui, podem ver, cheirando a vodka, cachaça e uísque.

Mas quer saber, quem faz rodeio é peão, ou pior, touro.
A verdade nua e crua é que eu tocava minha vida, fazia meu trabalho e me divertia. Sim, me divertia. Divirto-me ainda, aliás. Eu ouvia músicas antigas quando percebi que não sabia mais sentir aquilo. Eu não sabia mais como é ainda amar você. Eu era imune a picadas de Escorpiões. Por um segundo eu senti e a vista escureceu, mas eu continuei vivo. Vivo por que eu não morro de amor. É um alívio. Porém, naquele minuto eu pude sentir o coração que eu não sentia há tanto tempo. Não aquele simbólico, sentimental, mas o real. Eu senti ele bater com tanta força dentro do meu peito que eu imaginei que essa fosse a sensação de um rato preso dentro de um tambor. A visão não clareou, ela continuava negra. E eu sabia que eu olhava pra dentro do meu coração, agora simbólico. E eu não achei ouro. Eu achei pó. Demônios amarelos e pó. E eu senti medo e foi por isso que eu bebi. Não por que eu quase morri, mas por que eu continuo vivo. Eu bebi não pra acalmar um coração agitado, mas pra fazer essa coisa que estava silenciosa aqui dentro o tempo todo boiar, nadar, mergulhar, fazer qualquer coisa. Sim, eu estava fechado.

Fechado

Vamos hoje fazer uma brincadeira russa de inversão de papéis: eu lhes conto uma história; não vai ser muito longa, mas, acredito, vai ser enfadonha e sem importância. Que seja. Eu deixaria passar e reabriria de qualquer forma com um sorriso nos lábios, mas hoje não. Essa história, essa história é uma grande besteira.

“Então por que abrir a taverna noutro dia pra contar um história insossa?

Não me aborreça perguntando por que eu faço o que faço, eu só faço. Se quiserem dormir confortáveis, a qualquer momento, subam e peguem um quarto, não me importo; pr’aqueles que quiserem ficar acordados, ali está minha nova cafeteira com três medidas de pó já no filtro; as canecas estão logo ali. Café forte, como uma canhota do Rocky.

E principalmente:

pr’aqueles que quiserem tomar todas e se embriagar,

afogar as mágoas

matar as coisas ruins que existem dentro de si

pr’aqueles corajosos que enfrentam o inimigo, mesmo sabendo que a cada garrafa esvaziada outras sei-lá-quantas são produzidas,

eu digo que fiquem à vontade.


sábado, 16 de outubro de 2010

Pai e Treinador

Um dia um homem sentou num banco junto ao balcão, virou sua tequila e um gole de cerveja e me disse enquanto abria as mãos calejadas e relaxava os ombros doídos, numa anunciação profética até, depois um dia de trabalho braçal: "Deus é Pai."

“Ele não te abraça e te faz sentir protegido. Isso ele faz pras suas irmãs, e te diz pra seguir o exemplo e você diz, Sim, senhor. Ele diz, Levante a cabeça e mantenha o respeito e você, Sim, senhor. Cuide deles, Sim, senhor. Mas ele não é frio ou indiferente, é o jeito d'Ele e se você for esperto vai entender quando Ele passar o braço pelo teu ombro te fizer sentar e te mostrar uma caneca de café ou um prato de sopa depois de uma noite difícil.”

“Ele é bom, mas um dia te bota pra fora de casa e te manda cuidar da vida. Ele não te adula, Ele não te põe no colo mais quando você já é grandinho o bastante pra conhecer o mundo por si só.”

“Aí Ele te manda subir lá em cima e dar o sangue e não estragar a coisa toda. Enfia nos teus ouvidos aquelas malditas ordens que você sempre desobedece e joga na sua cara o quanto você é teimoso, burro, pequeno e desorientado. Você sobe e perde de vista tudo o mais, só consegue pensar se é que isso é pensar: ‘mais um, mais um, cai, cai, cai agora, merda... como dói’. Só pensa em como não deixar transparecer a dor e ainda cutucar a onça. Você tem que cantar de galo, tem que provocar, você não tem jeito. Parece outra pessoa falando na sua cabeça entre um latejar e outro das têmporas. Você já está sem forças, quer pedir água, se isso quer dizer desistir que seja. Você só tem sede. Mas não tem ninguém ali pra jogar a toalha por você, você está sozinho agora. Mas quando você vai pras cordas, você vê Ele ali. Parece dizer: ‘Você tem que cantar de galo, tem que provocar, você não tem jeito’. Você pensa que já teve essa sensação.”

“E quando acabar Ele não vai te levar pro vestiário e cuidar dos seus hematomas ou supercílio cortado. Não vai ver inchaços nem costelas quebradas. Quem vai te levar são as pessoas da arquibancada que não te conhecem tão de perto, mas ainda assim se preocupam, te amam. E você as ama, aquelas cinco ou seis pobres almas que ficam ali por você. Ele vai ficar ali e esperar você voltar. Ele é o Treinador de um lutador bruto e por pior que seja a sua postura e por mais que seu queixo e plexo sejam vulneráveis Ele não desiste de você. Ele fica ali em surdina esperando o dia que você vai mostrar que sua força e teimosia vão vencer no Mundo. Um soco por vez.”

Amém.

Fora de linha

Na última vez que vocês estiveram aqui eu falei do homem de preto. Ele tinha um violão nas costas; entrou, tomou um trago e me contou uma história que era mais ou menos assim:

“Ele veio pra mim em 88. A lataria, amassada; os pneus, gastos. Assentos desconfortáveis, volante duro. Motor barulhento, escapamento sujo. Precisava de alinhamento, calibração, troca de óleo. Até hoje ainda recebe uns reparos.”

“O funileiro fez milagres, o borracheiro recauchutou as rodas, trocou por outras. Hoje a pintura preta perolada fica vistosa e impecável dia ou noite, mas tudo ainda está lá, e eu sei. E essa é a melhor parte. Olho pra ele ali e digo que não se fazem mais desses. Cada arranhão, cada amasso, cada buraco no estofamento e cada ruído irritante me contou um pouco da história dele e eu soube que o queria no ato. Ele me dizia que era velho, antiquado, mas ainda dava para o gasto e que se eu entrasse ali e ficasse atrás do volante, mesmo na espuma poeirenta que tinha virado o banco do motorista ele seria meu destino e lar e seu baú guardaria os segredos que quero tanto esconder e as lembranças que quero esquecer. E eu pensei, Droga eu sou a porra de um caracol, que animalzinho sortudo. Vi muitos durante minha vida toda e tinha percebido que o peso que ele carrega é muito pouco para o que ele tem em troca. Eu não sentiria mais incerteza sobre onde iria parar e nos momentos em que eu quisesse fugir sem ter pra onde ir ele iria comigo e em qualquer acostamento ele seria minha casa. O preço que eu pago são as revisões, restaurações e abastecimentos. Gasolina, óleo, água. Velas, pastilhas de freio. Parece receita de bolo. Mas o que eu tenho de mais importante é minha vida com ele. Ele mudou minha vida e eu mudei a minha pra estar com ele. Por aquele carro eu erro, eu não me estabeleço, não tenho outra casa. Por ele eu toco esse violão nas cidades e durmo sentado a maioria das noites. Tenho meus casos, você me entende. Uma cama quentinha e companhia sempre caem bem. Mas é ele, com o rádio, que me acompanha na voz do B.B. King, Rick Derringer ou Gary Moore, que me acalenta das minhas desilusões como se fosse Billie Holiday e que, quando não há nada mais a dizer, apenas ronca.”

sábado, 9 de outubro de 2010

Procura-se modelos antigos

Might be the devil playing a little game
I´m so tired of this old rhyme...


O lugar estava lotado e o sino não parava de tocar. Foi quando eu vi um carro de ébano reluzente parar em frente ao bar; fumaça saía do motor pela tela do painel como se saísse das narinas de um animal robusto, empertigado e altivo. Com um relinchar apoteótico ele silenciou; um vaqueiro desceu e fez a volta para abrir a porta para o passageiro: uma caixa preta como os cabelos e os olhos da Morte, cuja forma já anunciava o conteúdo sem mistério. Reclinou na minha vitrine, próximo a entrada do metrô com o instrumento nas mãos, tocando acordes e dedilhados. Ele fazia algum sucesso.

Quando já tinha visto todos os clientes irem embora e oferecem moedas e notas ao artista na soleira da porta era hora de fechar. Fui até a porta e vi o homem dentro de uma capa no chão abraçado ao velho Resonante com o chapéu de aba larga caído nos olhos. Com um chute suave na caixa do violão e um convite irrecusável com uma garrafa meio cheia de Jack Daniels – eu já esbanjava otimismo – ele acordou e entrou. Sentamos, jogamos e bebemos. Ele passou a madrugada. Pegou um quarto para descansar os ossos doídos acordou cedo, pôs suas seis cordas nas costas e partiu. A história que ele me contou vocês vão saber outra noite.


I need a litle something to ease the things
Oh, Lord, have a little mercy on the sugar cane

Faça sol, faça chuva

Dias mal dormidos e noites mal vividas; aqui estou eu de novo caminhando de volta ao balcão. Asfalto molhado reflete o brilho opaco dos faróis e postes. À luz da lua os prédios parecem lápides de grandes túmulos coletivos para pessoas mortas para a vida noturna. Abro a porta, o sino toca, acendo as luzes e tudo ganha um brilho quente e aconchegante. Com um movimento distraído faço luz e caminho todo soberano e solitário num mundo luminoso. Vejo as prateleiras: Jack Daniels, Johnnie Walker Blue, Blue Label, Grand Old Parr. Guinness, Heineken, Stella Artois, Beck's. Balcão, copos, pints. Mesas, bancos, cadeiras. Madeira, vidro e líquidos. E eu vejo tudo e tudo é bom. Minha pequena brincadeira de deus de todas as noites.

Vou lavar, arrumar, varrer, lustrar. Logo a vida vai começar chegar.

sábado, 18 de setembro de 2010

Um brinde por conta da casa

Eventualmente, como qualquer um, o taverneiro tem seus dias mal dormidos e suas noites mal vividas.

Peço desculpas. Caso, melhor seria dizer, quando acontecer novamente pendurarei uma placa de fechado. Se for necessário.

Shakespeare escreveu que não importa em quantos pedaços seu coração é quebrado a vida não espera que você junte os cacos.

E cá estou só, bebendo com meu amigo Johnnie que sempre diz: Keep walking.

Alma de um homem

A madrugada era cinzenta e o colchão era morno; isso para me fazer entender que não era dessa vez. Eu ainda não tinha pegado o jeito. Estava curvado, desconhecendo ainda o peso da alma de um homem, refazendo os caminhos que me levaram àquele momento específico de insônia em que vi o rosto do meu pai nas manchas de gesso da parede. Teria visto o rosto do pai dele ali também se o conhecesse. Pensei em quantas escolhas se fizeram ka, quanto amigos se mostraram ka-tet e no inexorável fim de um último homem de pé frente a um monólito negro insondável que sempre fora seu destino, o objetivo velado de cada ação sua.

Sentido esse Es muss ein dentro dessa noite, a noite mais densa, eu esperei uma luz verde para seguir. Ela podia ser a luz dos olhos de um boxeador adversário sedento com suas costelas quebradas no último round, podia ser o elixir da juventude de que tanto pareço precisar ou a própria esperança da qual ele é feito.

Então eu me levantei de manhã, pus meus pés no chão. Olhei para o lado. Não tinha ninguém mais ali.

Fui (vim) trabalhar.

sábado, 14 de agosto de 2010

Contas pagas; copos e pratos limpos

Azul, como o escritor preferia chamar, voltou diferente. Trouxe uma grande caixa preta e uma cadeira pelo chão de madeira do palanquete até o microfone. Pareceram movimentos automáticos, sem sentimento. Ele tinha algo guardado. Sentou com a caixa sobre os joelhos e abriu. Ligou cabos, amplificador portátil e pedaleira.
Então ele tirou da caixa uma guitarra arranhada de um amarelo-claro e a segurou pelo braço levemente empenado. Captadores reluzentes e cordas velhas. Com certeza investiu muito na restauração, mas ficou sem recursos para as cordas. Elas estão lá agora e ele as olha como quem pede ajuda a seis velhas amigas, ajuda para saber o que vai ser dali para frente e para entender o que sentir e saber o que fazer. Fôlego, precisa de fôlego. Reclina contra o espaldar baixo e cruza as pernas quando a primeira decide começar. Elas começam a falar, a lembrar sua vida; elas começam a cantar.

Para a menina com os salto-altos sobre o balcão, o encapotado classudo faz um sinal com o copo de uísque e esboça um sorriso rasgado à navalha naquela massa de sofrimento contido e sarcasmo que ele chama de rosto. Então ela o vê atingir a primeira corda. O encapotado se vira e por um momento ele aproxima os ombros das orelhas e põe as mãos acima da cabeça, então acende um cigarro deixa uma nota embaixo do copo e sai. Ele não se dá com o amor. Não ocupam o mesmo recinto; seu ceticismo e amargura, com a leveza e a vibração.

A Cinderela frustrada que trouxe para casa os dois sapatos descobre nas distorções claramente que aquele príncipe angelical tem auréola quebrada, que sua roupa azul é desbotada, seus olhos são escuros, seus ombro estão cansados; descobre que ele é imperfeito, que precisa de cafeína e álcool, mas ainda guarda graça o bastante para dar sentido aos altos e baixos da vida numa linguagem elétrica que passa pelo ar e lhe percorre a coluna. Ali está ele caído na cadeira e ela tem seu primeiro momento de ciúme. Ciúme do corpo da guitarra canhota que ele abraça, das cordas que ele toca e de todos os ouvidos que podem ouvi-lo e de todos os olhos que podem vê-lo.

Garoto da auréola quebrada


Well the crooks are out
And the streets are grey
You know I wouldn' t have it
Any other way
Yeah
Your mother's words
are ringin' still
But your mother
don't pay our bills

A sinister kid
Is a kid who
Runs to meet his Maker
A child that's sprintin'
The day he was born
Straight into his Maker's arms
And that's me, that's me
The boy with the broken halo
That's me, that's me
The devil won't let me be

I've got a tortured mind
And my blade is sharp
A bad combination
In the dark
If I kill a man in the first degree
Baby would you
Would you flee with me?

Miados no Telhado

Hoje ela entrou pela porta.

Quando toma um bolo ou fora ela sobe pela escada de incêndio no beco do lado do prédio e entra pela janela. Não tem pertences valiosos que tema serem roubados. Hoje ela entrou pela porta. Hoje ela sabe o que de valioso lhe foi privado. Hoje é dia de pagamento mensal que agora ela prefere vivo; nada de envelopes embaixo do capacho da entrada. Ela precisa conversar, contar sua história.

Ela sente falta. Mas não fala a ninguém, pois ela sente falta da única pessoa com quem conversava. Diz que vem saindo mais, que está no aperto por isso, mas aperto maior é aquele que a leva a procurar agora desesperadamente por um pouco de atenção desse Taverneiro. Dentro do quarto ela perambula, seus passos macios fazem sons monótonos de lamento. Ela sente falta dele. Não o vê há semanas. Ela diz que pensa em escrever um recado e deixar num envelope embaixo da porta, como faz comigo, mas ela não quer lhe escrever; quer falar, quer ver. Hoje ela quer cheirar e tocar até.
...

Ele não a vê de costas e se levanta de onde estava sem que ela o veja. Distraída com o gelo no seu copo de vodka, a deixo e vou até a mesa dele. Não existem cálculos no pedaço de papel macio do guardanapo manchado de café.

Café e leite

A vizinha de olhos brilhantes costuma sempre, por ocasião de seus frequentes encontros mal sucedidos, bater à sua porta nas noites de folga sob pretexto de pedir um pouco de leite para o molho do peixe. Os desencontros que ensejam esses momentos de prática da boa convivência, nos quais o bom moço prepara o jantar enquanto ela se faz à vontade no sofá dele, ocorrem semana após semana com uma periodicidade que pouco os alarma.

Nos seus monólogos do sofá nada ela fala de si que não seja ambíguo e confuso e lhe faz perguntas para as quais ela mesma formula as respostas com ares sagazes de quem se acha detetive. Longe desses simulacros de familiaridade ela poderia dar por falta dos momentos de análise caseira, se os interpretasse como tais, mas tem pouca disposição e intimidade consigo mesma e com os outros para perceber o quanto são importantes.

A moça do apartamento em frente é, além de enigmática, vivaz e despojada e seria notavelmente linda se não fosse vista apenas em roupas casuais. Ainda assim quando de saída para o segundo turno da noite o vigia capta o aroma de um perfume feminino seria possível para ele imaginar que fosse ela, deslumbrante e cheirosa, se tivesse criatividade para tanto.

Mas ele nunca ousaria imaginar os prematuros fracassos da noite que a trazem às pressas mais cedo para casa à moda da heroína de conto de fadas.

Vida de cão

O garoto azul no canto tem uma caneta na mão, uma caneca de café na outra e se esconde atrás de uma pequena barreira de garrafas de cerveja. Já faz uns dois meses que ele anda calado e sumido. Parece cansado como quem persegue carros a pé toda noite. Trabalha muito ultimamente, mas anda com o aluguel atrasado. Isso o faz trabalhar ainda mais.

Entrou e ficou ali sentado entre os noves fora das contas de hora extra. Ele olha por detrás das ameias do castelo de vidro enquanto a moça que mora no quarto do outro lado do seu corredor entra pela porta...

sábado, 7 de agosto de 2010

O azul mais profundo...

O vigia noturno voltava para casa depois de cobrir o turno de um colega que tinha um jantar de família naquela noite. Costumava fazer esse e outros favores similares de bom grado para os colegas mais velhos, já que ele próprio não tem parentes e morava sozinho num desses quartos de albergue sem muito conforto, antes de chegar aqui.
Os colegas de trabalho, os únicos que tem, dizem que é triste um rapaz saudável e bonito viver sem amigos ou namorada, e ele abre um pequeno sorriso acanhado, do tipo daquele de que quem é pego de surpresa. Esses colegas constituíram família a pelo menos quinze anos, alguns bem podem ter filhos da idade do mascote, ou escoteiro, como eles o chamam, e pouco ou nada sabem sobre o quanto as coisas podem ser vazias de esperança e amor nesses dias para os garotos na idade em que eles já tinham esposa e filhos.
Ele, o vigia, que passa suas noites rondando sempre o mesmo perímetro, aparenta ser mesmo mais jovem do que é, principalmente em meio àqueles quarentões e cinquentões em uniformes azuis; mas, verdade, ele se sente, talvez, inconscientemente, mais velho perto desses senhores que gracejam, riem e gargalham a plenos pulmões a despeito do baixo salário e da iminência da aposentadoria.
Talvez ele se sinta cinco ou seis vezes mais velho, mesmo que não sinta os joelhos rangerem de artrite ao subir as escadas até seu apartamento ou os olhos cansarem por culpa da presbiopia ao assistir um programa de entrevistas no mudo, sem fazer idéia do que dizem no silêncio além das palavras, até mesmo inventando diálogos mais interessantes, esparramado no sofá que também é sua cama e única mobília. O que chega ao limiar da sua consciência instantes antes de fechar os olhos é mais como a sensação da falta de outro propósito ou sentido que não aquele de se espraiar todo no estofado tal como chega, comer um saco de biscoitinhos sortidos, insossos como ração deve ser, e dormir o dia inteiro. É como latir para um poste.